terça-feira, 17 de maio de 2011

Jornalismo Baixaria


Domingo, tarde da noite. Pai e mãe reunidos na sala para assistir ao mesmo programa de sempre, que nesta edição trará uma reportagem tratando da “ameaça” dos jogos eletrônicos violentos. O filho, um gamer já não surpreso com este tipo de reportagem recorrente na televisão, evita assistir a outra delas para não se aborrecer. Apenas fica em seu quarto aproveitando as últimas horas do fim de semana para jogar mais um pouco de “Final Fantasy VII”, enquanto a irmã, alheia ao assunto, apenas ouve músicas das Spice Girls em seu walkman. Enfim, nada diferente em uma semana comum que chega ao fim na década de 1990.
Quase 20 anos depois, não foram apenas o gosto musical da irmã do rapaz e os gráficos dos videogames que evoluíram. Pudemos observar também a gradual diminuição de reportagens que demonizavam de maneira gratuita jogos considerados violentos em favor de outras que se propuseram a discutir o tema de modo sério, envolvendo argumentações de defensores e detratores, além de pesquisar estudos científicos relacionados ao assunto.
Não só isso, vimos também as emissoras de televisão deixarem de ignorar a força econômica da indústria ao noticiarem reportagens sobre o crescimento do mercado de games no mundo, como este movimenta bilhões de dólares anualmente e até mesmo sobre a existência de vagas no mercado de trabalho dedicadas a profissionais que desejam ingressar nessa área no país.
Era uma demonstração de fortes indícios de que a imprensa brasileira estava finalmente adquirindo maturidade ao tratar sobre videogames. Entretanto, um fato recente põe esta perspectiva à prova.
Abutres desinformados
Os atos de violência cometidos na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, deixaram a nação em choque, perplexa. Historicamente, é comum que logo após a barbárie, sociedade e mídia busquem motivos que possam explicar o que leva uma pessoa a cometer tais atos de loucura.
Neste contexto, mesmo sendo impensável ter que destacar um ponto positivo em meio ao horror, gamers puderam ficar aliviados ao notar que nenhum dedo havia sido apontado aos videogames. Ledo engano. O psicopata não só acabou com vidas inocentes e destroçou famílias inteiras, como também fez ressurgir a lamentável peça jornalística ilustrada no início desta matéria. Mas a principal diferença dos tempos atuais para os anos 1990 é a pouca disposição dos jogadores a bovinamente ouvir ou ler reportagens sobre games feitas por pessoas desqualificadas no assunto.
A primeira tolice foi vista numa matéria do jornal O Globo publicada no dia 9 de abril, em que os jornalistas Antônio Werneck e Sérgio Ramalho afirmam que o assassino “usava a página na internet para disseminar mensagens desconexas sobre religião e jogos como “GTA” e “Counter-Strike”, onde o jogador municia a arma com auxílio de um Speed Loader, um carregador rápido para revólveres, usado por ele (...). Nos dois jogos, acumula mais pontos quem matar mulheres, crianças e idosos.”
GTA Realengo
Não sabemos ainda em qual dimensão alternativa os dois jornalistas encontraram Speed Loader ou contador de pontos por matar idosos ou crianças em “GTA” e “Counter-Strike”, porém o mais provável é que ambos não tinham a menor idéia do que estavam falando.
Claramente, pouquíssimos minutos de pesquisa na web teriam ajudado os dois profissionais a não publicarem bobagens, mas provavelmente estavam menos interessados em saber sobre “joguinhos” do que em distorcer fatos utilizando-se de um assunto que pouco conhecem. Para eles, o problema foi apenas ter que lidar com os desdobramentos posteriores: a reportagem foi rechaçada internet afora por comentários com alto teor de deboche.
O resultado? O jornal editou a notícia sorrateiramente (entenda-se: sem uma nota de Errata, procedimento comum que informa a retificação de erros cometidos em periódicos) removendo as informações falsas sobre os dois jogos.
Aí veio a TV Record...
O pior, no entanto, estaria por vir. A reportagem veiculada em 24 de abril no programa Domingo Espetacular, da Rede Record, foi o epítome de todas as desgraças que poderiam ser ditas relacionando o massacre de Realengo a jogos eletrônicos.
“O perigo dos videogames que abusam da violência” dito exatamente assim, ipsis litteris, por Paulo Henrique Amorim (AKA “Olá, tudo bem?”). É interessante analisar como a matéria exibida apresentou tantos equívocos além do conteúdo em si.
O primeiro deles foi o péssimo timing que a emissora teve para abordar o assunto. Vejam, o atirador já foi enterrado como indigente (e como tal sequer merece ser nomeado nesta matéria), o inquérito policial está concluído, todas as homenagens às inocentes vítimas foram feitas, os heróicos policiais receberam condecoração, enésimos especialistas nas mais diversas áreas do conhecimento já foram entrevistados e o único fato restante a ser noticiado é o estado das crianças que ainda permanecem no hospital. Assim, era desnecessário voltar a um tema já esmiuçado de maneira suficiente a cansar a população.
No Rastro da Bala é filme, então pode? Hãn?
Outro grande problema foi a contextualização bizarra da matéria. Como dar algum crédito a uma emissora que veicula um programa pretendendo responsabilizar jogos por atrocidades cometidas por um louco se em seguida exibe um filme chamado "No Rastro da Bala"?
É provável que os responsáveis pela rede de televisão não vejam problema em filmes que “abusam da violência”. O problema é só em games. Ademais, foram largamente evidenciadas as ligações religiosas do atirador, fato convenientemente “esquecido” pela Rede Record, cuja detentora é uma igreja evangélica.
Quanto ao assunto principal, nada além do previsível: conclusões estapafúrdias, jogadores sendo entrevistados com o rosto escondido, tal como delinquentes ou dependentes químicos, psicanalistas emitindo achismos sem qualquer tipo de base científica que sustente seus argumentos e momentos puramente risíveis.
Como a referência a “Duke Nukem” como um “jovem que bebe, joga e se envolve com dançarinas de striptease que de repente sai matando os inimigos”, ilustrando “uma sequência assustadora de tiros” ao exibir vídeos do game de 1996.
Foi uma grande tragicomédia que cumpriu seu papel de caracterizar os jogadores como uma massa boçal sem qualquer discernimento para distinguir o real da ilusão.
Túnel do tempo da estupidez
O Domingo Espetacular propiciou uma viagem no tempo, levando seus telespectadores de volta a 1999 numa espécie de “Columbine Reloaded” ou “Tiroteio no Cinema Revolutions”, trazendo de volta todos os cacoetes de reportagens feitas na época, conseguindo a proeza de jogar fora a notável evolução da imprensa ao tratar o tema nos últimos anos.
Não só isso: ao realizar a edição do vídeo colocando em paralelo imagens dos jogos, do assassino e até do corpo de um aluno morto, a Rede Record promoveu um espetáculo apenas comparável à época em que exibia closes de cadáveres em plenos fins de tardes no antigo programa policial Cidade Alerta. Palmas.
A repercussão foi um misto de escárnio e revolta entre os jogadores, mas desta vez mesmo pessoas sem ligação afetiva com videogames discordaram dos exageros exibidos na reportagem. O descontentamento se fez presente de novo através das redes sociais e até mesmo em vídeos-resposta contra a emissora no YouTube. O mais significativo, entretanto, foi notar a indiferença da opinião pública, que deu de ombros para o circo armado pela matéria, uma vez que a caça as bruxas já havia elegido outros responsáveis para tentar justificar o injustificável.
E cenas de sexo em novelas, por que não proíbem?
Caso sirva de consolo, vale ressaltar que não é apenas no Brasil que a imprensa se presta a um papel ridículo no que tange a games. Em 2008, o canal americano Fox News atacou deliberadamente o jogo “Mass Effect” por conta das nada explícitas cenas de sexo contidas no game. Ao vivo, Lawrence Cooper, a especialista da vez, riu da cara de Geoff Keighley, editor do site Gametrailers, quando este perguntou se por acaso ela havia jogado o título, ao responder que “obviamente não”.
Enfurecidos, gamers contra-atacaram com uma inundação de críticas ao livro de Cooper no site Amazon.com, alegando que assim como a autora em relação a ME, eles também não precisavam ler o livro para criticá-lo. Pouco tempo depois, Cooper pediu desculpas publicamente justificando-se que não havia visto o conteúdo real do game e se baseou apenas no que tinham lhe dito antes de ir ao ar, enquanto a Electronic Arts exigiu uma retratação do canal, que nunca aconteceu.
Embora os casos de sensacionalismo sejam os se evidenciem mais, não sinalizam um retrocesso generalizado. Felizmente podem ser classificados como exceções, pois para cada desserviço como o registrado no jornal O Globo ou em programas como Domingo Espetacular, há um CQC explorando a discussão de forma bem-humorada, mas respeitosa, um Debate MTV propondo ouvir os lados a favor e contra de maneira igualitária e, olhem só que ironia, um Globo Esporte surpreendendo telespectadores ao cobrir eventos como a queda da PSN.
A vitória, no final, foi do bom-senso.
*Texto originalmente escrito para a Revista EGW #114, edição de maio.
Quem sou eu: Bruno Rubio é repórter da revista especializada em games EGW.
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Esse texto não foi escrito por mim, mais acho de suma importância coloca-lo aqui =]

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